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Inteligência artificial: criamos nosso próprio concorrente. E agora?
A inteligência artificial pode ampliar o que produzimos, mas também nos força a decidir quais capacidades humanas queremos continuar desenvolvendo.
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Durante boa parte da nossa história, disputamos espaço com animais, enfrentamos doenças e sobrevivemos a desastres. Nossa posição no planeta foi construída em meio a essas ameaças. Mas nenhuma delas competia conosco da maneira que agora começamos a experimentar: escrevendo, programando e oferecendo respostas a perguntas que antes dirigíamos a outras pessoas.
Nós mesmos criamos esse concorrente.
Há algo curioso nisso. A espécie que aprendeu a transformar o ambiente está construindo ferramentas capazes de disputar parte do trabalho intelectual que sustentou essa transformação. E, diante delas, talvez sejamos obrigados a desenvolver capacidades que até agora não tínhamos motivo suficiente para exigir de nós mesmos.
Pense em um escritor sozinho em uma sala. Ele pode revisar os próprios textos, estudar e buscar novas ideias. Mas é ele quem estabelece a medida do que considera bom.
Quando um segundo escritor entra, essa medida pode mudar. O outro encontra uma solução diferente, percebe uma contradição ou faz uma pergunta que o primeiro não havia considerado. Ao trocar ideias, os dois podem chegar a algo que nenhum produziria sozinho.
A inteligência artificial acrescenta uma nova presença a essa sala. Ela não participa como uma pessoa, com experiências e intenções próprias, mas consegue produzir alternativas que nos fazem comparar, questionar e rever o que criamos.
Minha hipótese é que essa convivência pode nos levar a um grande salto de aprendizado. Não porque a concorrência sempre nos torne melhores, mas porque teremos de decidir quais capacidades queremos desenvolver quando parte do que fazemos puder ser realizada por uma máquina.
E essa decisão começa em situações pequenas: um profissional que pede ajuda para escrever, alguém que tenta entender um assunto, uma pessoa que encontra uma nova maneira de executar uma tarefa. Aos poucos, a novidade pode virar hábito, como aconteceu com o celular.
No começo, o celular era uma novidade. Depois, virou uma ferramenta útil. Até que passamos a organizar boa parte da vida em torno dele. Talvez a inteligência artificial percorra um caminho parecido: chega como uma opção e, aos poucos, muda o que esperamos das pessoas e do trabalho.
É aí que a sala dos dois escritores fica mais interessante.
Até então, o primeiro escritor conhecia o ritmo da concorrência. O outro precisava ler, estudar, escrever, descansar. Os dois tinham limites parecidos, ainda que um fosse melhor que o outro.
Agora, entra na sala uma ferramenta capaz de produzir versões de um texto em segundos. Algumas ruins, outras razoáveis, outras suficientes para aquilo que alguém precisava. O escritor pode apontar os defeitos de cada versão, mas isso não elimina a pergunta que acaba de surgir: o que, no trabalho dele, faz alguém escolher o seu texto?
Essa pergunta incomoda porque exige uma resposta que antes podia ficar escondida atrás do esforço. Demorar três dias para escrever alguma coisa demonstra trabalho. Mas o leitor recebe o resultado; ele não viveu esses três dias com você.
Talvez o escritor precise observar melhor, investigar mais, encontrar uma pergunta que ninguém fez. Talvez precise abandonar uma fórmula que funcionou durante anos. Ou descobrir que parte do trabalho pode ser feita com a ferramenta, deixando mais tempo para aquilo que exige sua atenção.
É nesse sentido que imagino um salto evolutivo. Uma mudança no que aprendemos, no que valorizamos e no que somos capazes de produzir. Não uma alteração dos nossos genes nos próximos anos.
Mas a concorrência, sozinha, não garante esse salto.
Na mesma sala, um escritor pode usar a inteligência artificial para testar ideias e questionar as próprias conclusões. O outro pode aceitar a primeira resposta, publicar e encerrar o trabalho. Os dois terão acesso à mesma tecnologia, mas estarão exercitando capacidades diferentes.
Esse é o ponto que me deixa dividido. A ferramenta que pode ampliar nossa capacidade também pode tornar muito confortável deixar de exercê-la.
Se eu entrego toda pergunta antes de tentar pensar, toda frase antes de tentar escrever e toda decisão antes de entender o problema, o que estou aprimorando em mim? Posso estar produzindo mais enquanto aprendo menos.
Por isso, tenho dificuldade em imaginar que a inteligência artificial fará a humanidade inteira avançar da mesma maneira. Algumas pessoas vão explorar possibilidades que antes estavam fora do seu alcance. Outras poderão perder espaço, renda ou oportunidades de aprender. Para quem está vivendo essa perda, chamar tudo de evolução não resolve muita coisa.
Ainda assim, a presença desse novo concorrente nos obriga a examinar uma ideia antiga: a de que nossa inteligência nos assegura um lugar que ninguém pode ocupar.
Talvez tenhamos confundido esse lugar com certas tarefas. Escrever um texto, resolver um cálculo, organizar informações. Quando uma máquina começa a executar parte delas, precisamos olhar com mais cuidado para o que queremos fazer com essas capacidades.
Eu suspeito que os próximos anos vão nos cobrar justamente isso. Escolher problemas melhores. Assumir responsabilidade pelas respostas. Desenvolver critérios para reconhecer quando uma solução parece boa, mas está errada.
O segundo escritor já entrou na sala. Agora, preciso decidir o que farei quando me sentar para escrever.


